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Sexta-feira, Janeiro 09, 2004
![]() Aê pessoal! Esta é a parte final do texto. Foi um grande prazer escrever aqui, pra vocês e sobre o Mars Volta. Até mais :] San Diego, Califórnia. Bom, eu estava de volta. Minha rotina era Waffuls, Internet, curso, andar pela cidade, algumas festas na casa nova (fui morar com 4 japoneses e um gaúcho - Sushi!) alguns shows de vez em quando, mas nada de Mars Volta. Naquele primeiro show do De Facto em Los Angeles, perguntei pra Cedric se eles tinham planos de tocar com o Mars Volta nos próximos meses (minha única chance de ver a banda ao vivo) e ele disse que não devia ter nenhum show até o fim do ano, pois acabando os shows com o De Facto, eles iam terminar de gravar e mixar o disco. Fiquei meio triste na hora, mas nem consegui pensar muito nisso, tava falando com os caras ali mesmo, e ainda ia ver o show de De Facto dali a um mês e meio. Naquele momento eu tava bem realizado. Perguntei como estavam indo as gravações. Ele disse que faltavam apenas as faixas acústicas. "Vai ter 'Roulette Dares' ?". "Vai" :] . Bom, já era Setembro e eu tava voltando pro Brasil no fim de Outubro. Eis que eu recebo um e-mail do Ticketmaster [guacala!] com o assunto "Não perca o Govt Mule". Quando abro.. o calandário com os shows do próximo mês. Entre eles Mars Volta (abrindo pra Blonde Redhead) no começo de outubro e International Noise Conspiracy, faltando 3 dias pra eu voltar! E Sergio Mendes! Hahah Vi agora. Ainda tenho o e-mail salvo. Se alguém quiser vê-lo em real-mail ( :] ) entra no asphyxiaderailed@yahoo.com.br . A senha é "figponto7ponto2" Chegado o dia do show, fiz o percurso habitual: 2 ônibus (ou um, se eu já tivesse no centro) e uma andadinha. Caminho meio árduo, mas delicioso (pelo menos de lembrar - se bem que eu lembro que eu gostava daqueles 50min - 1h de reflexão antes dos shows). Já tinha o ingresso nas mãos, pois já tinha passado por alguns aperreios, que sempre se resolveram, mas de uma forma emocionante demais pra eu arriscar com o Mars Volta. Chegando lá, ainda cedo pro show, fui pro estacionamento onde ficavam as vans das bandas atrás do galpão, e logo encontrei Cedric. Falei com ele um tempinho. Perguntei sobre Eva, a baixista. Tinha visto na Internet que ela tinha saído. Ele me falou que era verdade. Algumas diferenças maiores, Cedric disse. "O que é uma pena, pois ela é formada em etimologia da música (algo assim), conhece ritmos de vários lugares pelo mundo". Perguntei: "Quem entrou no lugar dela?". Ele: "Nosso amigo Ralph", o roadie que eu pensava que era doido no primeiro show do De Facto! Entrei no clube (The Scene). Espectativa total pelo Mars Volta, que ia tocar antes do Blonde Redhead, sem nenhuma banda de abertura. O show do Mars Volta é um dos espetáculos mais interessantes de se ver. A banda entra timidamente no palco e assim que a música começa não existe mais passado e futuro. Cedric parece um cantor de merengue aloprado, tentando dançar o mais rápido que seus pés deixam. O corpo acompanha de forma às vezes assimétrica. Omar, pequeno e franzino (a primeira vez que o vi tive a sensação que ele tinha minha idade), encarna o funk dos anos 70, misturando com passos de salsa e palmas. Cedric agacha, pula, enrola o cabo do microfone no pescoço, coloca o pedestal no teto, sobe nos amplificadores. Um verdadeiro Jonescafé. A banda tem uma conexão intermental fantástica, e as músicas seguem sendo perfuradas por algumas improvisações ocasionais. Das cinco músicas que eles tocaram eu conhecia 3: 'Concertina' e 'Eunuch Provocateur' do Tremulant, e 'Cicatriz ESP' que tinha sido lançada como demo. Outra grande impressão foi Jon Theodore na bateria. Desde o Tremulant dava pra notar claramente que a composição e o tempo da bateria eram extremamente complexos, e tentar acompanhá-la se tornava em poucos segundos uma brincadeira sem graça. Fiquei impressionado como ao vivo ele toca aquilo tudo e ainda muito, muito forte! É um monstro de três umbigos! No final do show falei com ele. Quando disse que era do Brasil, ele falou que os brasileiros tocavam muito bem, porque conviviam desde pequeno com o ritmo da batucada. \m/ <-- Breno. Falei depois com o pessoal da banda que tava todo junto e conheci Linda Good, que tocou nessa turnê no lugar de Ikey. Foi meu último físico direto com eles, talvez em toda a vida :] . Talvez não. Bom, no início de 2003 eles entraram em turnê com o Red Hot Chili Peppers. Flea falou que o Mars Volta é a melhor banda com quem ele já tocou. E não ficou só na turnê não. Com a saída de Ralph do baixo, Flea se juntou à banda e gravou o De-Loused In The Comatorium, primeiro disco completo do Mars Volta, na mansão de Rick Rubin (produtor do álbum), uma casa com uma presença carregada, segundo Omar. A mansão foi presente de Houdini, o mágico, que também tinha outra casa na vizinhança, à sua mulher e tinha um túnel que ligava as duas casas. O disco é todo sobre a história de um personagem chamado Cerpin Taxt, alter-ego de Julio Venegas, amigo da banda que se matou em 1996, injetando veneno de rato em suas veias. Antes de morrer, porém, Julio passou um tempo em coma, então é sobre esse espaço de tempo entre a tentativa de suicídio e o que eles imaginam que acontecia na atividade subconsciente de Julio, pouco antes de sua morte. Ambientes e sensações. E é justamente por aí que o álbum vai. Lançando sensações que, junto com algumas palavras no meio de um mar de frases indecifráveis (acredito que até pra quem fala inglês naturalmente, pois eles usam um vocabulário grotesco e extremamente rebuscado), levando-nos a uma experiência surrealista dentro da música. Cada vez que escuta-se o disco e lê-se a letra, coisas novas são percebidas, fazendo com que a história seja vista de forma diferente. Meu amigo Jorge aqui do blog é um exemplo maravilhoso de como é passada a sensação através da música. Um dia eu botei o cd e, na primeira faixa ('Son et Lumiere', que é um prelúdio para 'Inertiatic ESP') Jorge, sem conhecer a história do disco, disse que lembrava muito um ambiente de hospital. Disse que só imaginava uma maca entrando no corredor. Isso é muito bonito! Quando perguntado por Helder Gomes, da revista portuguesa Mondo Bizarro, sobre as influências da banda, Omar responde: ''O cinema é, provavelmente, a nossa influência mais forte, é a forma como olhamos para a nossa música. Olhamo-la como se estivesse integrada num filme, do ponto de vista das personagens e do guião (roteiro)''. Ele ainda completa: ''visualmente, as nossas maiores influências são Luis Buñuel, Stanley Kubrick, Alexandro Jodorowsky, pessoas como o Lenny Bruce e o Andy Kauffmantambém. Pessoas que, de alguma forma, reinventaram a linguagem como uma arma ou a comédia''. Talvez deva-se a isso, a habilidade da banda de nos remeter a um lugar ou para dentro do personagem, que por sua vez está dentro de uma história (dentro de um disco que estava dentro da cabeça dessas 6 pessoas). É muito mais cinematográfica do que musical, a explicação para a singla ESP que segue o nome de 'Inertiatic' e 'Cicatriz'. Segundo Cedric, ESP (Ectopic Shapeshifting Penance) ''é o processo através do qual a personagem principal se transforma numa outra, diferente em cada tema. (...) por metamorfose do ectoplasma, envolvendo coisas sobrenaturais, capacidades, fantasmas'' Apesar da essência da banda ser a mesma, o De-Loused In The Comatorium, musicalmente, é um disco bem diferente do Ep Tremulant, que na minha opinião tem uma atmosfera mais escura, introspectiva, mesmo com as partes explosivas de 'Cut That City' e 'Eunuch Provocateur'. Inclusive os únicos momentos baixos na minha experência escutando o disco foi que eu estranhei as versões novas de 'Roulette Dares' e 'Inertiatic ESP' (essa eu tinha numa antiga gravção ao vivo). Já tava acostumado com as versões antigas e foi meio difícil me acostumar com as mudanças, mas esse é o espírito da banda. O próprio Omarfalava: ''A gente tem uma ideologia sólida, e parte dela é estar sempre crescendo e não ter as mesmas idéias do ano passado''. O disco resgata as raízes rítmicas latinas (que no Tremulantsó apareceu na forma de letra na belíssima 'Concertina'), principalmente em 'Drunkship Of Lanterns', e a banda tá mais progressiva e melódica, menos eletrônica. A voz de Cedrictá bem mais técnica, com muitas melodias e agudos lançados dentro do ambiente que os instrumentistas constroem. Cada instrumento parece ir pra um lado diferente, até se encontrarem numa harmonia fantástica. O De-Lousedé um disco de momentos extremos (confusão explosiva de 'Cut that City' à delicadeza de 'Televators') e de músicas com momentos extremos ('Roulette Dares', 'Eriatarka'). As principais influências musicais são Led Zeppelin, Fugazi, Santana, Miles Davisnos anos 70, Radiohead, ambient dub e outras. Tem uma definição engraçada de Omar sobre o Mars Volta: ''Somos uma banda de rock que quer ser uma banda de salsa''. A capa do disco foi feita por Storm Thorgerson, que também desenhou Houses Of The Holy (Led Zeppelin) e Dark Side Of The Moon (Pink Floyd). John Frusciante, de Red Hot, tocou em 'Cicatriz ESP'. O primeiro single do disco foi 'Inertiatic ESP', que em sua capa trazia mais uma referência clara ao surrealismo. É um olho fechado com formigas por dentro. As formigas são temas fortes em obras surrealistas, como no filme "Um Cão Andaluz" de Luiz Buñuel e Salvador Dali. O filme é um marco no surrealismo e foi feito a partir da idéia que Dali teve sobre uma mão cheia de formigas, e da idéia de Buñuel de uma nuvem cortando a lua. No filme um homem corta o olho de uma mulher com uma navalha, intercalando com a cena da nuvem cortando a lua. Arrisco dizer que a referência a este filme é direta. Formigas e olho. Ultimamente, o Mars Volta ao vivo parece uma banda de free-jazz. A parte de improvisação veio ganhando cada vez mais espaço no setlist da banda, até Cedric faz vocalizações e canta algumas frases aparentemente disconexas. A banda está sempre em metamorfose e assim eles vão se reiventando, praticamente na mesma velocidade que a internet endeusa e destrói uma banda. Há menos de um mês eles lançaram um disco/EP ao vivo, gravado em dois shows em Londres, e está previsto pra 10 de Fevereiro o clipe de 'Televators', dirigido pelo chileno Alexandro Jodorowsky, que ,como eles falaram, é uma grande influência pra banda. Quando o Mars Volta tocou no MTV Latino Awards, Outubro passado, eles foram apresentados por Zack De la Rocha. Faço minhas as palavras de Zack: ''É raro na música quando uma banda reconhece seu passado e se nega a ignorá-lo. Uma banda que honra o espírito de pessoas como Celia Cruz, Fela Kuti e MC5. Não com nostalgia, mas com sua própria inventividade. Uma banda que é mais interessada em criar momentos do que criar hits. Esta é a banda e este é o momento. Este é o Mars Volta''. ANTES E POR DENTRO DO MARS VOLTA De Facto - Dub instrumental bem viajado, com muitos efeitos e ruídos, influenciado por pioneiros do dub como Lee Perry e Dr. Alimantado. A banda já existia desde a época do At The Drive-In. Tem esse show de Long Beach, que eu falei na primeira parte do texto, com uma qualidade bem legal, ajudada pelo fato do show ter sido em lugar aberto e de dia. Uma dica de música é 'Radio Rebelde', muito massa :] . Free Moral Agents - Hip Hop, jazz, eletrônica, soul. É o projeto de Ikey, o tecladista. Também é muito massa. Da demo, a música que eu mais gostei foi 'I Travel'. Sparta - Banda dos outros integrantes do At The Drive-In. Achei bem mais ou menos. Eles lançaram em 2002 o disco Wiretap Scars. Do Mars Volta, recomendo os vídeo dos shows no Lowlands e no Eletric Balroom (pra MTV2), as demos de 'Roulette Dares' e 'Cicatriz ESP' e os b-sides 'A Plague Upon Your Hissing' e 'Caught In The Sun'. www.themarsvolta.com www.goldstandardlabs.com/defacto/defacto.html www.mule.net www.chez.com/blonderedhead alt.digitalfarmers.com/tinc www.brasil66.com www.thescenelive.com www.redhotchilipeppers.com www.beastiemania.com/whois/rubin_rick www.uelectric.com/houdini ::
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