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Sábado, Março 27, 2004
Numa estância autoconservadora e até mesmo irônica, o primeiro cd da banda pernambucana Mombojó se intitula "Nadadenovo". Nada novamente, nada de novidade e se brincar, nada de novo no mar da música. Mas é mentira, isso é só pra puxar assunto! Se tem um defeito nesse cd é o título. Claro, claro. Todos os instrumentos já existiam, a probabilidade da organização dos volumes, timbres, ritmos e melodias também já faziam parte do universo em sua natureza bruta. Mas a gente tá aqui pra filosofar ou conversar? O certo é que foram os "mombojós" que revelaram o resultado de toda essa complexidade probabilística as nossas orelhas. O equilíbrio dos ruídos das canções lembra a consonância de uma multidão de pessoas no centro da cidade do Recife desesperadas para ir para onde devem ir. Pessoas caem no chão, tropeçam, arrastam a sandália e andam de bicicleta. O chão da ponte Duarte Coelho é o teclado de Chiquinho e cada praça, palácio ou o próprio monumento de Brennand são outros possíveis instrumentos, pode escolher qual é qual. É interessante como tudo flui nas musicas do cd da Mombojó. Assim como se você jogasse mel em cima da cabeça de uma guria, o mel iria lento e suavemente para o lugar no qual pré-pertence ao fim do último acorde. É lindo ver o mel escorrer sob a ação da força da gravidade e sob o contorno das curvas do corpo da mulher. É como se o destino já estivesse traçado, mas este fosse tão complexo a ponto de não podermos prever com exatidão onde tudo vai dar, onde o mel vai parar; podemos apenas sentir. As músicas da Mombojó já se iniciam revelando ao sentimento até onde vão e onde vão parar. "Deixa o meu sentimento te falar". Falar que na banda há uma harmonia muito grande de sons, como se a soma do tocar de todos os componentes se misturasse de uma forma que fizesse criar um paradoxo entre o que é fado e coincidência. Eles são verdadeiros cozinheiros do som, e de mão cheia. O tempo de cozimento e o equilíbrio dos temperos são uma arte para poucos. Minha avó era uma ótima cozinheira, não sabia tocar nada. Ela não seguia receitas de bolo, era puro "feeling". Uma vez minha tia perguntou quantos gramas de farinha de trigo botava em certo bolo, ela respondeu: "Deixe-se acreditar". Dá impressão de que a banda é formada não por mestres cucas formados na cozinha francesa que estudaram profundamente combinação da química dos alimentos, texturas, pH e o ponto de ebulição da água. Minha avó nem sonhava que com 100° a água começava a ferver, mas ela sabia a hora exata de desliga a boca do fogão. A impressão que se tem é que Mombojó é formado por cozinheiras que aprenderam a arte da cozinha desde o nascimento com suas mães, tias, e talvez até por vizinhos, com certeza. Mas não tem Mombojó nenhum que faça comidas iguais as que minha avó fazia no São João, ela fazia maravilhas com o milho (Aê milhão). Ah se eu pudesse comer o bolo de milho da minha avó escutando a faixa 3 do cd, "Nem Parece". Quando eu escuto essa canção, a primeira coisa que me vem à cabeça é esse bolo de milho da minha avó, do começo ao fim há uma inconstância suave típica do milho que cozinhou em degradê de textura e som. É, não há como negar que a cozinha da banda garante uma barriga cheia de batidas originalmente fragmentadas e linhas de baixo que dão inveja a qualquer especialista em código Morse. Mas o recheio suculento das músicas é resultado da escaleta, do cavaquinho e do violão de Marcelo Campello, da guitarra discreta e concisa de Marcelo Machado, da flauta de o Rafa e do teclado psicodélico e o sampler cinematográfico de Chiquinho. Quem chama pra jantar é o vocal calmamente poético de Felipe S, com letras de uma beleza simples. Algo que também chama atenção é o baixo no violão, típico Demônios da Garoa, presente na "Missa" e em "Splash Shine", que faz criar na música uma nostalgia de algo que não sabemos bem de que é. Oh! E quando escuto o começo de "Deixa-se acreditar", a primeira coisa que me remete é a imagem de um anão vestido com roupas ciganas surfando durante a noite na praia de Maracaípe - PE. Mas o anão só vai embora quando tudo terminar, quando o mar secar. Essa música inspira uma instigação tremenda, como se um tipo de alucinógeno sonoro nos transportasse para um Reino da Alegria onde tudo pode ser. Ao contrário do que muitos falam, eu não consigo classificar a banda como uma mistura entre Los Hermanos e Mundo Livre S/A. Seria uma análise altamente reducionista. Todas são bandas sensacionais, mas diferentes. Dizem também que eles são um conjunto pós-mangue. Disso eu não sei, mas com certeza é "pré" alguma coisa e "pós" outra coisa, como tudo na vida e na arte. Particularmente, eu divido as canções da banda em dois estilos: música montanha russa e música elevador. A partir daí existem vários tipos de elevadores (antigos, modernos, caindo aos pedaços, panorâmicos e até quebrados) e montanhas russas (quem já foi na Disney sabe, eu não fui). As músicas sobem e descem de maneira assustadoramente fluente, umas com mais violência e outras rapidamente devagar. A flauta inebriante de o Rafa entra na música como um veludo azul massageando nossa coluna vertebral, é a linha tênue que separa as inúmeras cores da canção. E junto a isso, o cavaquinho de Campello não "chora só por chorar", ele se insere na melodia quando não dá mais para prender o choro. Enfim tudo que acontece em Mombojó dá um toque sutil e intrigante a mais nas composições e não dá pra escolher o "prato predileto" entre as faixas. É para digerir e absorver tudo: O céu, o sol, o mar, a lua, o universo, os planetas, a natureza, uhuuw! Abaixo seguem os nomes das faixas sob a ótica surreal dos sentidos: 01 - O cansaço molhado de "Cabidela" 02 - A instigação nômade de "Deixe-se Acreditar" 03 - A nostalgia atemporal de "Nem Parece" 04 - A chatice do "Discurso Burocrático" 05 - A espera curiosa da "Missa" 06 - A hipnose aguda de "Absorva" 07 - A poeira branca de "O Céu, o Sol e o Mar" 08 - O aprender a andar de "Estático" 09 - A meiguice secreta de "Adelaide" 10 - A maciez daltônica de "Duas Cores" 11 - A sinceridade fétida e calma da "Merda" 12 - A liberdade explosiva de "Splash Shine" 13 - O malabarismo da "Faaca" 14 - O remar preguiçoso do "Baú" 15 - A ingenuidade utópica de "Container" Pois é, vale a pena baixar todas as músicas no site e/ou comprar o cd que em breve vai ser vendido em todas as bancas do Brasil na revista de Lobão, "Outra Coisa". www.mombojo.com.br www.brennand.com.br www.demoniosdagaroa.com.br www.loshermanos.com.br www.manguebit.org.br/mlsa www.disney.com www.lobao.com.br www.revistaoutracoisa.com.br ::
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4:20 PM
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